domingo, 28 de fevereiro de 2010

crônicas de desencontros

Mouchem já passava dos 80 anos e ainda trabalhava como taxista. Eu estava em um restaurante em Vitória e depois de jantar com Dryca, pedi um taxi. Chovia raios e granizos. Decidimos sair dali antes que ficássemos presos pela chuva. Era nosso segundo encontro e queríamos,já, estar aprisionados em outro lugar.
As ruas começavam a encher e não havia resposta sobre o taxi. Então pedimos mais um drink e eu reparei Mouchem sentado na varanda, passando o lenço nos olhos.
Ao me ver ele engoliu o choro , voltou pro mundo real e disse:
- O senhor quer um taxi?
Seu carro estava parado do outro lado da avenida e já terminara seu expediente. Eu sorri pra ele e aceitei.
Mouchem atravessou a rua, na chuva, com os pés mergulhados em poças, contornou o quarteirão e nos apanhou.
Era pequeno e simpático e dirigia com o peito colado ao volante. Eu passei a reparar nele. E a cada relâmpago eu via o branco de seu cabelo ficar prateado. Tão frágil.
Comentei que estávamos com medo de ficar presos no restaurante, a noite toda, por causa da chuva e ele me olhou pelo retrovisor.
Depois pedi que me esperasse ir ao caixa eletrônico e ao voltar ele já estava conversando com Dryca. E contava:
-Então , é por isso que eu não consigo ir pra casa. É por isso que eu choro.





E passava o lenço nos olhos.Se referia a filha , Samara, que 8 nos atrás resolvera ir para os EUA. Lá, arrumara um emprego e vivia irregular. De um relacionamento, tivera uma filha, neta de Mouchem, Assara, a qual ele nunca tinha visto de perto.
-Já viajei pra muitos lugares. Mas, nos EUA não me deixam entrar. Já fui barrado duas vezes. Não consigo entender. E minha filha não pode vir porque não poderia voltar mais. Já tem as coisinhas dela lá, que conquistou, mesmo clandestina.Então, estamos aprisionados na distância e na saudade. Queremos estar juntos.
E completou:
- O amor machuca as pessoas de várias formas e foi dessa que ele decidiu me machucar: fazer sentir saudades de alguém que nunca vi,
Murmurando:
-Assara!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A Chama Azul do Afeto


Existiu um Rei que doente e temendo a morte pediu que seu general lhe trouxesse a chama azul. Essa chama existia numa caverna, nas montanhas geladas e segundo a lenda da região, podia trazer cura e vida.
O general então partiu e depois de dois anos de busca retornou ao palácio.Ao lhe ver de mãos vazias o rei indagou furioso:
-como pode retornar sem cumprir sua missão. Sem a chama azul!Estou doente e fraco! Não me alimento de nada e preciso dela.
E mandou que os seus soldados o castigassem.
O general foi chicoteado e humilhado e repetia:
- Eis aqui meu rei.
Após sua morte os soldados relataram ao rei:
-Ele não parava de falar que estava com a chama e lhe deixou esse bilhete alteza
-Encontrei a chama azul em meu intimo, meu rei, durante uma tempestade, na ultima noite, dos dois anos que estive lá.
Um velho aldeão me encontrou e me levou a sua cabana e lá me aqueceu e me deu de comer.
Não havia muito para dois e ele disse que aquela noite sua alma já estava aquecida e alimentada de afeto. Pois, não via e nem conversava com ninguém fazia dois anos.E me disse: Saciaste a minha solidão e eu sacio a sua fome de pão. A chama azul prepara o alimento tanto do corpo quanto da alma.
-Tentei lhe entregar meu rei. Mas a lenha que tinhas estava encharcada de medo e horror e não pode reter a chama azul. Lamento, morrereis tu e tua alma: ambos famintos.
¨
* Fragmento do livro AHAVA A Chama Azul do Afeto!

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

O Fel do amor!


O amor é como a rosa encharcada de carmim e orvalho de cicuta.
O amor é um escárnio. Um navio que nos arrasta acorrentados, que nos salga a carne mitigada, enquanto nos empala lanças .

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

O que elas querem Freud?


Essa semana acompanhei uma verdadeira batalha em um desses sites de relacionamentos que proliferam como moscas na Internet. Começou com uma das envolvidas passando mensagens para toda a rede de relacionamento do site denunciando que uma “megera” estava usando suas fotos de corpo (editadas) no mesmo site. Bem, seguindo meu faro jornalístico resolvi investigar o que poderia ser o primeiro caso de plagio de bunda do Brasil , quiçá do mundo.

As fotos em questão,destacavam, invariavelmente, a tão cobiçada preferência nacional e em nenhuma delas aparecia o rosto da “Raimunda”. O perfil das duas envolvidas era bastante convincente: classe media, nível superior (Diz a lenda) e outros predicados.

O circo estava armado e de repente repercutiu por todo o site...Uns diziam que o glúteo era de fulana e outros, taxativamente, defendiam ciclana...Como bom samaritano pensei em me oferecer para fazer uma perícia(uma mistura de Badan Palhares com Gil Grisson (Willian L. Peterson) da serie CSI e pq não, contando com a consultoria espiritual do saudoso Carlos Imperial...o Cara que mais entendia de lebres no mundo!

Mas, fui demovido da boa intenção por minha namorada.

Chacotas a parte, cabe agora a reflexão: Fico me perguntando:O que querem as mulheres? (e não estou plagiando Freud,por favor! Só padeço da mesma curiosidade!)

Apedrejadas, queimadas em fogueiras,afogadas,torturadas,exiladas,

tudo isso pra no Séc XXl assistirmos e essa e outras demonstrações de

demência e de overdose de estrogênio fazendo estrago nas cabecinhas incautas de nossas meninas?

Se o estrago fosse só na cabeça delas, menos mal . Mas,na verdade a amplitude de comportamentos e estereótipos semelhantes funciona como um poderoso e silencioso agente contaminante do imaginário coletivo. E em função disso ,as delegacias femininas ficam abarrotadas de queixosas mocinhas e senhoras com hematomas. Humilhadas,desrespeitadas,intimidadas e cerceadas de seus direitos e de suas prerrogativas .

Pois, seus algozes:maridos,companheiros e amantes se alimentam desses arquétipos e/ou ícones que se propagam no meio. Mas o efeito e mais profundo ainda se atentarmos para detalhes sutis como: Desde a criação do Premio Nobel, em 1901, apenas 11 mulheres ganharam o Nobel da Paz.

No Brasil a trajetória feminina nestes cinco séculos destacou centenas de biografias de mulheres que participaram na formação do país, contribuindo nas diferentes áreas e de diversas formas. Ate hoje mulheres como a Irmã Dorothy Stang estufam o peito e encaram as mazelas e injusticas desses tristes tropicos. Sendo assim me permito aconselhar as mocinhas ,debutantes new-pederastas, a migrarem para a Barra da Tijuca...a Meca da futilidade...ate porque por osmose poderiam ser fagocitadas pelo PROJAC.

FENIX


Todo dia a estória se repete: rico com medo de pobre; pobre com medo de pobre muito pobre e pobre muito pobre com medo de pobre muito pobre e preto. Em um dos seus textos Frei Beto destaca: Entre Rio e São Paulo há cerca de 2,3 milhões de jovens, entre 14 e 24 anos, que não terminaram o ensino fundamental. Nesse contingente encontram-se 80% dos assassinos e dos assassinados.

Contato precoce com álcool, acesso as drogas, irresponsabilidade, impunidade, ociosidade, complacencia dos pais e o desejo de se aventurar, tipico dos neuronios jovens, fazem um coquetel de efeito devastador nessa geracao.

Na classe media, acidentes de transito,vícios,são os principais algozes. Já na favela,o envolvimento com o trafico e a criminalidade se encarrega de trucidar tantos jovens.

Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, Paulo Freire exauriram suas forcas em prol da construção de um modelo educacional coeso, denso e instigante para o jovem, mas o marketing e as ambições políticas trataram de perverter a idéia, que foi sucateada.

A escola publica já foi sinônimo de orgulho. Hoje agoniza! Visitando um CIEP conversei com a diretora que me disse ter problemas sérios de infra-estrutura e recursos, de toda ordem. Durante a visita, acompanhei um fato estarrecedor.Um menino de nove anos, ainda na primeira serie, tinha telefonado pra policia de um orelhão dentro da escola.O rebento estava denunciando maus tratos a policia e aguardava a chegada da viatura. Tudo por ser repreendido pela professora, por ter batido em um colega.

O menino já era temido por todos e, invariavelmente, lançava mão de argumentos intimidatorios, dizendo conhecer o trafico e seus chefes locais e jurando vingança a cada reprimenda. “E quase rotina” admitiu a diretora. Ele parece que é instruído por terceiros: chama a policia e o conselho tutelar, se diz maltratado,mas no fundo, visa à desmoralização da escola e a intimidação de seus colegas, impondo um certo “respeito”.

Quando indaguei sobre os pais, a professora me disse que o pai tinha sido assassinado e que a mãe era alcoólatra. Ao ouvir fiquei sem ação e calado por um bom tempo. Mas o detalhe que me chamou mais atenção nisso tudo foi o fato de que o menino, enquanto esperava, sentou, apanhou uma folha de seu surrado caderno e começou a dobrar varias vezes, ate surgir um lindo passaro, como um origami. Naquele momento percebi sua face doce de criança, sua capacidade de concentração e criatividade. Estava tudo ali! Debaixo de tanta magoa, dor e rancor. Me aproximei e disse: essa é a fênix e contei, resumidamente, a estória do passaro q renasce das cinzas. Ele ouviu, me fitou e disse: Tio! deve ser bom ter uma nova chance né ??!!

Cronicas Destiladas


Seja bem vindo! esta pagina foi criada para servir aos nossos visitantes algumas cronicas para aplacar as maledicências dos tempos modernos.


biografia

Acabo de reler a Biografia de Vianinha (Oduvaldo Viana Filho): Vianinha - Cúmplice da paixão ,de Denis de Moraes. Magnífico e apaixonante!

O jornalista e escritor destaca que “O genero conhecido como BIOGRAFIA situa-se na fronteira criativa entre a literatura e o jornalismo, produzindo um estilo narrativo híbrido, ágil e envolvente, capaz de fisgar todo tipo de leitor, em qualquer lugar.

Dênis afirma que quanto mais atribulada a vida e contraditório o personagem, mais rica e interessante resulta a biografia”.

As biografias são como pegadas na areia que não se apagam. Rastros de cometas que cruzaram o céu de nossas vidas, feitos de contradições, descobertas e desejos.

São pistas sobre a inquietude do espírito humano, aprisionado na mediocridade da breve existência: decrepitude!

Mozart, Marcuse, Van Gogh, Oscar Wilde, Althusser, Fernando Pessoa, Paulo Leminski, Cecília Meireles, Giordano Bruno, Herbert de Sousa, só pra citar alguns, tecem um bordado de estrelas, que, através de seus amores, ideais e sonhos, nos deixaram um legado.

Brilhantes, insanos, nunca redundantes ou desumanos, comporam, brindaram, escreveram, enlouqueceram e amaram, sempre de forma intensa, quer tenha sido ao outro, ou às suas convicções.

Cumpriram seus destinos escapando da mortalidade absorta no comum, como diamante incrustado em cascalho.

Alguns com suas obras acidas, que nos afetam qual mariscos que rasgam a carne desavisada. Outros como tempero, salpicando em nossas vidas sabor e arte. Já outros, messiânicos e brandos como a chama azul. Todos renitentes ao tempo e querentes pelo nosso encontro.